Minha alma escorre como em um rio de palavras. Sou uma metáfora que ressoa como um gemido de uma Fênix em pedaços. Há uma chama que consome minha imagem, meu reflexo e meu aroma. Estou perdido, sem memória possivel, desaparecido e pulsando. Não há mais sóis nem templos de ilusão. Existo como um EU, que se reconstroi entre cacos e silêncio.
Sexta-feira, Julho 30, 2004
TEATRO DO FIM
Ele está sentado na primeira fila. As cortinas entreabertas e os cacos de um episódio tragicômico. Ele, as poltronas e os espelhos. Ouviu, sem ouvidos, a sirene tocando o princípio milenar do tempo. Fios se tornando alvos sem moverem do lugar. Uma canção sem ritmo. Não há atores, nem ato. Ele é a própria farsa. Drama e comédia pastelão. Sentado na primeira fila. Uma mesa de gavetas entreabertas. As cortinas são transparentes teias aracnídeas. O silêncio é o sotaque de eloqüência. Transitividade... transitoriedade... Os olhos perdidos nos cantos vazios. Obliqüidade... ambigüidade... Um olhar seco e sem juízo. Um sorriso?! Palhaço descalço em farrapos. Cômica desgraça de incompatibilidade. Milhares de luzes apagadas e a sombra solitária sob a única cadeira de rodinhas. Estática figura sufocada. Sem respiração ou movimento. Teatro de figuras de cera. Carne humana e pasta d'água. Arrancados os fios das sobrancelhas. A língua mutilada, para alcançar maior expressão dramática. A cruz sobre o corpo descalço! Ave Maria, mãe dos desgraçados! Apenas um homem sem sexo. Todos os dedos imóveis, dentro de luvas médicas. Ossos de gesso pendurados no teto de madeira podre. Aranhas, baratas e cupins. O pó de arroz virou poeira acumulada sobre os pés gangrenados. Olhos afundados na caveira. Todos os orifícios à mostra no grotesco instante de aplauso. Toc-toc-toc. Um círculo de aço amarrado ao calcanhar. Eternamente preso ao tormento de sentir-se. Sentir-se como ninguém. Nada mais atrás das orelhas ou frente ao nariz. Como é?! Deste modo assimétrico. Pintura multiplicada até o infinito. Infinitamente, até o derradeiro desespero. Melhor espetáculo de todos os tempos findos. Álbuns de fotografias e
pôsters com letras garrafais. Tudo queimado em última ânsia de calor. Cócegas na pele azul esverdeado. Dentes amarelo pálido. As unhas arrastando o chão em modo pendular. Caminhos profundos no tablado. Uma gravura sem olhos e boca aberta na parede negra. Solilóquio desconexo. Será que ainda tremem as pálpebras?! Vácuo. Vácuo no perfil da estátua de cera. Corpo encurvado sobre os joelhos, mirando os cacos. Um nú, como Adão exilado. Pedaços de fígado na bandeja de ouro. Latão pintado de dourado. Lata de leite em pó. Pedaços se desprendendo do leproso. Assim e sem costura com fios de
nylon. Ossos marionetes. Nomes esquecidos entre grades. O artista é seu público monológico. Eu, eu e mim mesmo.
(L. F. Calaça | 28/07/2004)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 12:20 AM Comments:
O TRAPÉZIO
Todos os nomes algemados
na cadeira elétrica sem cordas.
Minha língua emaranhada
de signos de céu e caos.
Os membros mutilados
dançam as partes anatômicas.
Entre os nervos e másculos,
o corpo da trapezista cai.
Como uma ave desabando
entre o caso e o ocaso tonto.
Canto segmentado e tempestade.
Gelo na alma e quase pranto.
O papel em branco feito pedaços.
Metamórfico senso de clarividência.
Àquela mesma dormência, quase nada
e quase eternidade, entre chamas.
Todos os nomes algemados
ao puro significado da inércia dor.
Algum lugar entre maçãs vermelhas
e a teia de pedras subterrâneas.
O toque do fantasma claustro,
braços no trapézio de ilusão.
Então ¿ fala o léxico.
(L. F. Calaça | 24/07/2004)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 12:19 AM Comments:
Sexta-feira, Julho 23, 2004
O CASTELO DE CARTAS
Meu sonho se prende aos soltos ligamentos das paredes de cartas. Empilhadas as imagens na figura interditada do eu. Sempre perdida a idéia inicial do solilóquio. Despertaram os cílios dos olhos enfeitiçados. Guardo o cheiro em um frasco de gelo. Difundido e dissipado. Assim, penso, os sentimentos são guardados e intocados, transmutando-se sem ninguém. Os passos na escada e nas prateleiras derretidas. Ouço o pendulo a fatiar minha virilha. Um poço de vidro e cal. E uma torre transformada uma cruz alada. Encurralado entre grades e correntes, dança o altruísta que se afoga na saliva envenenada. Tudo novamente tudo. Os grilhões de minha fortuna e meu destino. Exagero e culpa própria paga sem parcelas promissórias. Não há tranças, nem trilhos enferrujados. As ervas nascem nos caminhos e cobrem os lagos dos afogados gansos náufragos. Um bater de asas pneumáticas. Ácido lático e asma crônica. Dois sonhos encasulados na fornalha. As cinzas renascem das brasas mortas. Palavras e um sorriso de boneca de trapos. Consumado o ato tragicômico. Um
poodle latindo para o espelho d¿água, soterrado até o pescoço de soluços hilários. O humor e o amor decorados na mascara de louça. Perdida a noção de profundidade e superfície. Tatuagens sobre a parede de pedra ônix. A palidez dos olhos ao relento dos tombos. Imagens sobreviventes do holocausto. Milhares e milhares de besouros cascudos. Uma canção de ruídos abafados pela noite. O sono e o homem abraçados a um rosário de escadas bambas. Não disse?! Tudo novamente tudo. O ás de espadas. Três colunas dóricas. Atmosfera de prelúdios de vida. Insetos nascidos no vente da mãe osmótica. Pedaços de pedaços aglutinados na planície fértil. Onde nascerá o campo e as pastagens?! Naquele ponto além da ponta dos dedos. Os olhos entre os óculos de perto. Aqui nascerá a ilusão do mundo. O mundo é feito de linhas curvas e transpiração. As gotas sólidas de vela acesa e resfriada. Escultura de fogo imóvel. Bela imagem atrás das cortinas. Um punhado de lembranças idealizadas. Cartas de papel fogem entre labaredas nuas. Um oficio para o cardeal. Nego meus dentes e minha salvação. O vôo guarda a sensação única de transferência. Engolido pelo espaço inalcançável. Dormirei um ato inteiro sobre as pilastras. E o castelo será imagem sobre as nuvens. Cantou o sumiço dos pardais.
(L. F. Calaça | 18/07/2004)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 12:56 AM Comments:
O HOMEM LUA
Meus cabelos crescem e despencam numa chuva que se desfaz em circunferência. Apenas uma superfície iluminada, ou calva. Digo apenas que reluz num fictício brilho translúcido. O que há é um corpo pálido e repleto de crateras, causadas pelos choques inevitáveis com as realidades tão veementes e desconexas. Pedaços de tudo espalhados sobre o chão de espelhos negros. Um ponto, como uma partícula quântica que não é, mas tende. Tendão de Aquiles e calcanhar de ilusórias verdades, que integram e repelem convulsivamente. Espasmo?! Nova ilusão dolorosa. O velho é rocha cristalina e seus pequenos grãos afogam e sufocam em tempestade de areia. Fixos apenas os olhos presos na grande forma de ovo, em transe ou curiosidade mórbida. Um recém-nascido segurando uma equação logarítmica. Um sorriso de canto de boca. A ausência de dentes e céu repleto de nada. Um nada que é a matéria de tudo o que tende à obliqüidade ou à fração. Poesia? Onde guardo o colapso?! Numa almofada de veludo, intocado, sereno e nulo. Tudo é aparente ou referente. O homem é o que é na mesma instancia que a fragilidade de uma quase lágrima engolida. Os punhos estão serrados aos gritos que sempre dizem o mesmo bolodório demográfico. Que tendência inexorável de complicar o que apenas tende! Não tende, é! Ou não é. Tudo está na alcance da córnea. Se eu fosse o meu oposto, não deixaria de ser o oposto do eu. Como?! Um jogo cosmológico e labiríntico. Símbolos para representar genitálias, tons e expressões de culto ao assombroso. Nada é integrável, nada é individualizável. Apenas algo sem forma, cor ou densidade. Vagando perdido o homem que nasceu Lua. Amantes?! Desesperados suicidas. Algo que não é, pois não se fixa no horizonte, que é vertical. A linha apenas enforca o pescoço emaranhado de teias azuis. Ilusão ou verdade, alguém afirma a pluralidade. Será?! Será que somos o que somos?! Teses de doutorado, coletes espaciais. Salvem meu próton, ou meu elétron que vaga no triangulo solitário. Sem ciência, inconsciência. Tenho perdas e pernas mancas, mas olho os olhos do único louco sano. Não existem profetas ou camisas estampadas. Há o branco na íris e o amarelo no filme de ficção cientifica.
(L. F. Calaça | 14/07/2004)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 12:54 AM Comments:
Domingo, Julho 04, 2004
IMPRESSÕES IMPERFEITAS
"entre mim e a cena
a vidraça"
A MOSCA, Samuel Beckett
"Ó vidros sobrepostos do pensamento
Na terra de vidro movem-se esqueletos de vidro"
DE PEDRA E CAL, André Breton
O silêncio martela no asfalto, enquanto linhas seguem sucessivamente. Reconheço os tropeços do vazio, como um medo... É, absolutamente necessário. A transitoriedade confunde minha organização sistemática. Há um caminho invisível no fim do caleidoscópio. Uma simetria impossível e compartilhada pelas dobras decantadas. Microscópicos fragmentos de alma em suspensão no pára-brisa. Os vidros sujos de lama, nascida da chuva e das lágrimas. Decantadas... A tragédia ou uma sensação gozada de dor. Não se justifica a justaposição. Corpos e copos empilhados no balcão. E as cópias que resistem aos incêndios no deserto. Histórias voam ao poder do vento estático. Sentir é se alimentar de nuvens. As nuvens são ovelhas aladas que se decompõem como miragem ou ilusão anestésica. Como posso?! Não se ensina a ser. Tudo e nada imerso num subjetivismo pirotécnico. As chamas e as névoas de água calefeita. Os pedaços de concreto repartido no princípio das aranhas de pernas plásticas. Coisóides meteorológicos. Nenhum tremor detectado nas transpirações involuntárias. Não entendo o porquê das letras garrafais que vejo nos painéis publicitários. Tudo é tão pequeno, e hiperbólico. Ênfase no insignificante... Pra quem?! Para alguém, certamente. Eu não... Eu ser, será?! Conflitos existenciais só levam aos suicídios camuflados pelas cortinas mofadas. Sempre uma nota do piano com catarata. Vejo o silêncio impregnado de pigmentos primários. Uma gênese para o que sempre foi coisa alguma. A minha única certeza é aquilo que deixou pedaços multicores. Haverá realmente cores, ou impressões imperfeitas?! Nada tem simetria, pois tudo tende para o lado oposto do binóculo. Um olho vê apenas um semicírculo. O resto está sob as pálpebras paralíticas. Transformo as ossadas em adubo ou ração para os porcos. Um aroma canforado sobre os poros das mãos de ócio. Um dragão atravessado pelo colapso da lira de vidro. Práticas proféticas são teorias de blocos calcários. Olhem o que há naquela saleta pequenina: uns óculos, uma ampulheta e um microscópio de digitais. Restos mortais do quase homem.
(L. F. Calaça | 22/06/2004)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 5:48 PM Comments: